O cotidiano em pingos do Mêi de Mái

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Como fiz no final de abril, resolvi apresentar mais umas gotas do meu cotidiano de cidadão brasileiro no controverso e contraditório século XXI. Claro, outros séculos também são contraditórios, como descobri ao estudar a Inquisição Colonial, mas o século em que vivo tem suas próprias contradições, o que me enche de asco, orgulho, surpresa e banalidade.

Começo com as fotos abaixo. Observem que, neste período de chuvas, faltando três dias para o início do semestre, encontrei essa situação em um dos corredores do nosso Campus Universitário da UFPB. Se as pessoas soubessem que em climas tropicais a passagem das cadeira empilhadas para essas quase transformadas em pó e nitrogênio é coisa de menos de um semestre, pensariam duas vezes antes de se desfazer de madeira e metal que poderia estar direcionada para a reciclagem agora.




Na mesma Universidade Federal, vemos o clima de desolação aos domingos. Vez por outra um pai e uma mãe levam o filho para brincar, um ou outro guarda passa por ali. É um lugar ótimo para meditar, já várias vezes eu tendo aproveitado do ambiente isolado para praticar o zazen com os membros de nossa sanga. Há a interessante situação de ser um domingo à tarde e a cidade que anseia por cultura não organizar nenhum evento cultural de graça nesses ambientes. Onde estão os artistas? Ora onde! No facebook, postando besteiras!


Ainda na UFPB, este é um carro que passei alguns dias vendo nos domínios do reitorado da UFPB. Não sei se o carro foi abandonado ou se era uma intervenção maluca dos alunos de artes, mas leva a pensar de várias formas no grau a que chegamos dentro das instituições de ensino superior no Brasil. O carro foi enfim rebocado.


Esta embaixo é uma das portas de um cursinho onde trabalho. Né por nada não, mas eu queria uma porta assim na minha casa. O trabalho é bonito. Quando soube que esta porta tem mais de 60 anos, é que pirei! Eu quero um trabalho desses na minha residência!


Abaixo, uma figura estúpida que estacionou o carro em um espaço exclusivo para ônibus. Resultado? As pessoas saem do conforto e da segurança da parada de ônibus e se aventuram no canteiro estreito entre a entrada dos ônibus e a rua, colocando em risco os usuários do coletivo. O carro permaneceu ali, estacionado, cinco horas, pois fui estudar, voltei e ele ainda estava lá. Em determinado momento, o motorista desceu de um prédio perto, acompanhado de crianças, entrou no carro e foi embora. O engraçado é que vi um carro do DETRAN e da polícia passando três vezes em ronda pelo local e nada faziam. É a Teoria das Janelas Quebradas.


No mesmo local, um dia depois, choveu torrencialmente, e a água chegou a quase entrar naquele posto de saúde da outra vez, e ainda quase entrou na boate citada (a placa da extrema direita da imagem acima). As garrafas e o lixo jogado próximo aos bueiros pela boate e por seus clientes causou a situação abaixo. Notem para os cacos de vidro na imagem, e para os estabelecimentos comerciais do outro lado da rua prejudicados pelo descaso civil-governamental.


Para piorar, um grupo de trabalhadores da prefeitura resolveu desentupir os bueiros e, entre várias garrafas de cerveja (lembram da boate da qual falei?), encontraram a placa de um carro! Portanto, se você for o dono da placa, ela estava em frente ao Centro de Práticas Integrativas há 15 dias.


Abaixo, uma placa explicativa de um dos pontos históricos da cidade, a Igreja de São Francisco, com mais de 400 anos. Todos os domingos, uma horda de turistas chegam com seus guias e se estabelecem pela área, e a placa, com mais de 5 anos de uso, nem mesmo é cuidada pela prefeitura. Enquanto isso, um dinheiro gigantesco foi usado para a construção de um Estação Ciência à beira de uma falésia.


Depois da imbecilidade dos adoradores de Che Guevara, que idolatram um assassino e opressor, agora temos mais desses estúpidos defendendo Hugo Chávez como se este fosse o ápice de toda a bem-feitoria do mundo. Flagrei essa imagem poucos minutos depois de pichada.


Acha que é a única pichação absurda que encontrei? Essas são, novamente, dentro das dependências das UFPB! Na primeira, há a promulgação da paz pela guerra, como se a paz mundial e a ausência de sofrimento só fosse possível com mais sofrimento. A segunda pichação acaba usando a mesma "lógica" deturpada de dar a todos o que não pertence a ninguém (típico dos marxistas que se acham materialistas dialéticos).



Quando li essas frases, pensei: "essas pessoas precisam de tratamento". Porém, ao flagrar essa abaixo no último domingo, percebi que já estão sendo tratados, e que as pérolas que vi são o resultado de um árduo tratamento psicanalítico por gente sendo formada no curso abaixo.


Depois do Mêi de Mái, outros pingos do cotidiano virão, talvez do Fim de Mai. A goteira tenderá a se assomar. Até mais.

A pequena horda dos horrores literários

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Fonte da Imagem: Prêmio TAC Terra Una

Não sei como foi nas demais gerações, mas na minha, muitos escritores começam bem. Escrevem muito bem simplesmente porque escrevem por prazer. Publicam ótimos livros, vencem concursos literários com maestria. Depois de um tempo, fazem sucesso, fazem amigos, mas terminam caindo na armadilha da arrogância (desfazendo as amizades), são capturados na rede do metalinguismo vazio, tentam poetizar demais o que escrevem, e começam a registrar literatura mais em quantidade, o que com o tempo começa a destoar sua qualidade.

Sem primeiro se adequarem à sublimidade de sua própria estética (presente até mesmo no grotesco), terminam sendo louvados por uma pequena burguesia intelectual e uma simplória mídia local. Mandam crônicas e ensaios para jornais, revistas e sites de qualidade parca, duvidosa ou questionável, ou mesmo fundados pela mesma pequena burguesia intelectual da simplória mídia local. Seus textos começam a decrescer em complexidade. Suas frases endeusam a péssima imagem das feiras dos cinco dias, excetuando-se os dois. Usando figuras de linguagem paupérrimas, típicas de um popozofunk carioca, sua produção começa cada vez mais a valer cada vez menos que o cheiro de ovo pós-digerido. Para dizerem que são intelectuais, ou para bancarem de heterodoxos, assumem uma boemia estereotipada, como uma casca alcoólica. Marcam a ferro quente em suas nádegas rótulos levianos, como beats, indieshipsters, junkies. Fazem-no apenas para se amostrarem, ao mesmo tempo assumindo a própria zona de conforto em suas almas ao negligenciarem o verdadeiro espírito da heterodoxia.

Não bastasse isso, começam a viver de criticar outros poetas e escritores. Lançam críticas duras, ferrenhas, à forma como eles produzem. Trazem para sua relação com as demais pessoas toda a carga de uma vida terrivelmente mal gerida. Tentam laicizar a literatura (como se isso fosse possível). Assumem o escrever sem responsabilidade (como se o escritor pudesse publicar com dinheiro da prefeitura e não dar nenhum retorno social indo às escolas). Toda a euforia advinda da percepção da qualidade potencial da criação começa a ser abandonada.

A pior parte é que o meio começa a alimentar essa estupidez em forma de pseudo-arte. Jornalistas, radialistas, críticos, outros escritores, professores e uma parentela de suporte se assoma de tal modo em torno deles que inevitavelmente eles se viciam no sucesso. Para continuar alimentando essa realidade sem noção, escrevem mais, fazem mais contatos, hiperativizam-se nos eventos culturais de suas cidades, entram em grupos de artistas (usando de ideias retrógradas ou imbecis demais para serem de fato efetivadas).

Não adianta outros os avisarem. Pouco resultado se tem em alertá-lo de que isso o está envenenando. Toda tentativa de apontamento é recebido às pauladas, entendida como conspiração. Chega um dia em que eles se tornam maus. A corrupção toma seus corações, e eles nem mesmo percebem. Começam a ser rudes, arrogantes, estúpidos e mal-educados, entendendo que tudo o que fazem vem do fato de serem eles as vítimas do alertador, e não que eles estão criando a situação de seu opróbrio futuro.

Aquele que tentou alertar desiste. No fim, tornam-se máscaras louvadas e publicadas, enquanto que bons poetas e escritores que não se submeteram às idiotices cultuadas por essa galera são pouco a pouco esquecidos por seus contemporâneos, e uns poucos desses que conseguiram manter incólumes seus manuscritos serão entendidos como aqueles que de fato mudaram a história. Quanto aos entusiastas da autopromoção literária, apodrecerão nas valas de sua própria ridicularização.